13 setembro 2007

CLOACA MAXIMA



O acrônimo vem da época do Império, mas ainda hoje se encontra gravado nos prédios públicos - e mesmo nas tampas dos bueiros - de Roma: "SPQR", significando "Senatus Populusque Romanus" (O Senado e o Povo Romano). Algum pândego italiano, com muita probabilidade um romano sem medo da autodepreciação irônica, propôs que a sigla fosse lida como "Sono Pazzi Questi Romani" ("são loucos estes romanos"). Há quem atribua esta versão ao tradutor italiano dos quadrinhos de Asterix. Existem também, na Itália, os que prefiram a leitura "Sono Porchi Questi Romani" ("são porcos estes romanos"). Em todas as versões alternativas - o que não chega a ser curioso - some o Senado.

Pois Brasília agora parece oferecer uma nova leitura do acrônimo, em que o Senado e a porcheria e a pazzia atualizam-se e combinam-se em ridícula e assustadora pertinência.

06 setembro 2007

Amantes


Maria Martins, O impossível, bronze, 1944


"Olha para os seres humanos; cada um é um veneno para o outro."
Ludwig Wittgenstein, Cultura e valor


"Dois amantes que são? Dois inimigos."
Carlos Drummond de Andrade, "Destruição"

Banco Central

"Cunha uma moeda de cada erro."
Ludwig Wittgenstein, Cultura e valor

"A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos."
Oswald de Andrade, Manifesto da Poesia Pau-Brasil

Setembro

"A religião como loucura é uma loucura que brota da irreligiosidade." (Ludwig Wittgenstein, op. cit., p. 29)


Wittgenstein, Ludwig

Excertos de Cultura e valor, trad. Jorge Mendes, Lisboa: Edições 70, 1996:

"O livro está cheio de vida - não como um homem, mas como um formigueiro." [p. 95]

"Onde os outros avançam, fico eu parado." [p. 99]

"Lutamos com a linguagem.
Estamos envolvidos numa luta com a linguagem." [p. 27; cf. "O lutador", de Drummond]

"Os sonhos de um homem praticamente nunca se realizam." [p. 86]

"Se na vida estamos rodeados pela morte, também na saúde do nosso intelecto estamos rodeados pela loucura." [p. 70]

"Se as pessoas não fizessem por vezes coisas disparatadas, nada de inteligente alguma vez se faria." [p. 79]

"Se ofereceres um sacrifício e com ele te sentires satisfeito, tanto tu como o teu sacrifício serão amaldiçoados." [p. 45]

"A tragédia encontra-se onde a árvore, em vez de se dobrar, se quebra." [p. 14; cf. idem, p. 79 (o touro como herói trágico) e passim (considerações inúmeras sobre trágico e tragédia)]

"Talvez um dia esta civilização produza uma cultura." [p. 97]

"As obras dos grandes mestres são sóis que nascem e se põem à nossa volta. Virá uma altura em que cada uma das grandes obras que estão a declinar de novo se erguerá." [p. 32]

"Um dos métodos mais importantes por mim utilizados é o de imaginar um desenvolvimento histórico das nossas idéias, diferente do que de fato ocorreu. Se o fizermos, vemos o problema de um ângulo completamente novo." [p. 62]

"Quando filosofas, tens de descer ao caos primordial e sentires-te aí como em casa." [p. 98]

"Quem ouve uma criança a chorar e compreende o que ouve saberá que aí dormitam forças anímicas, forças terríveis, diferentes do que geralmente se supõe. Raiva profunda, sofrimento e ânsia de destruição." [p. 14]

"Os horrores do inferno podem ser experimentados num único dia; é tempo de sobra." [p. 46]

03 setembro 2007

Reflexões sobre o material bruto

Fotograma de Santiago, de João Moreira Salles.

O circo


"O circo é talvez um parque natural sociológico, no qual se executa o jogo entre as castas dos senhores, composta de criadores de cavalo e domadores, e um dócil proletariado, a plebe dos palhaços e dos empregados de estrebaria ainda ingênua, sem força revolucionária. É um (talvez estranho) lugar da liberdade de classe. Mas é ainda um lugar da liberdade em outro sentido: com razão disse Serna, em um conhecido discurso realizado do trapézio em um circo de Milão, que a verdadeira liberdade dos povos seria antes de mais nada conquistada em um circo. A mim parece que há apenas duas profissões que naturalmente sejam fiadoras da liberdade, e nenhuma das que se possa geralmente pensar. Certamente não as muito suspeitas irmãs misericordiosas [...] ou os pacifistas [...], mas os matemáticos e os palhaços: o mestre do pensamento abstrato e o mestre da natureza abstrata. A liberdade, garantida por suas assinaturas, seria a única na qual eu confiaria. Essa liberdade conquistada no grande circo seria também a liberdade no interior do mundo animal, aquela que o patronato roubou dos homens. Pois este é o segredo do sentimento especial com que cada um adentra o circo: no circo, o homem é um convidado do reino dos animais."

Walter Benjamin, "Ramon Gomez de la Serna, Le Cirque. Paris: Simon Kra 1927. 214 pags", em Gesammelte Schriften, III: Kritiken und Rezensionen, Frankfurt: Suhrkamp, 1980, trad. Antonio Carlos Santos, em Raúl Antelo, Tempos de Babel. Anacronismo e destruição, São Paulo: Lumme, 2007, p. 18n.



Fotos do enforcamento da elefanta Mary, do circo dos irmãos Sparks, em 13 de setembro de 1916.