
"O circo é talvez um parque natural sociológico, no qual se executa o jogo entre as castas dos senhores, composta de criadores de cavalo e domadores, e um dócil proletariado, a plebe dos palhaços e dos empregados de estrebaria ainda ingênua, sem força revolucionária. É um (talvez estranho) lugar da liberdade de classe. Mas é ainda um lugar da liberdade em outro sentido: com razão disse Serna, em um conhecido discurso realizado do trapézio em um circo de Milão, que a verdadeira liberdade dos povos seria antes de mais nada conquistada em um circo. A mim parece que há apenas duas profissões que naturalmente sejam fiadoras da liberdade, e nenhuma das que se possa geralmente pensar. Certamente não as muito suspeitas irmãs misericordiosas [...] ou os pacifistas [...], mas os matemáticos e os palhaços: o mestre do pensamento abstrato e o mestre da natureza abstrata. A liberdade, garantida por suas assinaturas, seria a única na qual eu confiaria. Essa liberdade conquistada no grande circo seria também a liberdade no interior do mundo animal, aquela que o patronato roubou dos homens. Pois este é o segredo do sentimento especial com que cada um adentra o circo: no circo, o homem é um convidado do reino dos animais."
Walter Benjamin, "Ramon Gomez de la Serna, Le Cirque. Paris: Simon Kra 1927. 214 pags", em Gesammelte Schriften, III: Kritiken und Rezensionen, Frankfurt: Suhrkamp, 1980, trad. Antonio Carlos Santos, em Raúl Antelo, Tempos de Babel. Anacronismo e destruição, São Paulo: Lumme, 2007, p. 18n.

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