
"Descemos do ônibus depois de vinte e tantas horas, numa rua ou numa praça (era de noite) que parecia bordejar uma massa de edifícios que começava logo em seguida, coisa que víamos sem no entanto termos a mais mínima idéia de onde estávamos, apenas víamos aquela massa de edifícios à nossa frente, àquela hora mágica do dia, a mesma que Magritte fixou numa de suas telas mais atraentes, atraentes no sentido em que se diz que um astro maior atrai corpos espaciais menores que contra ele se esborracham quando crêem dele se apoderar, emocional ou intelectualmente, pois para isso serve a arte, quer dizer, para esfarelar e esborrachar as coisas e as pessoas e as idéias, nada mais."
Teixeira Coelho, História natural da ditadura, São Paulo: Iluminuras, 2006, p. 101.
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