[...] ao superficial e faiscante preferimos o profundo e sombrio. Seja em pedras ou em utensílios, nosso gosto é pelo brilho mortiço que remete ao lustro dos anos. Lustro dos anos é expressão poética, pois tal lustro na verdade nada mais é que sebo acumulado. Ou seja, é o brilho resultante da contínua manipulação de áreas ou de objetos: tocadas e acariciadas constantemente, tais peças acabam absorvendo a gordura das mãos. [...] talvez pudéssemos dizer [...] que 'a sujeira estimula a estesia'. Seja como for, as coisas que apreciamos como belas e requintadas têm em sua composição parcelas de sujeira e desasseio, não há como negar.
Junichiro Tanizaki, Em louvor da sombra, trad. Leiko Gotoda, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 22-23.
Joseph Beuys, Como explicar quadros a uma lebre morta, 1965.
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