20 julho 2007

Roupas


Muitas vezes quando vejo roupas com múltiplas pregas, babados e pingentes que se aplicam de maneira bonita sobre corpos belos, penso que elas não vão se conservar assim por muito tempo, mas ganhar dobras que não se pode mais alisar direito, recolher pó que, infiltrado nos ornamentos, não é mais possível tirar e que ninguém vai querer se tornar tão triste e ridículo a ponto de vestir todos os dias a mesma roupa preciosa pela manhã e despi-la à noite.
Vejo porém moças que são sem dúvida bonitas e ostentam músculos e ossinhos múltiplos e encantadores, pele esticada e massas de cabelo fino e que no entanto aparecem diariamente nessa fantasia natural, põem sempre o mesmo rosto nas mesmas palmas das mãos e o fazem refletir-se no seu espelho.
Mas às vezes à noite, quando elas chegam tarde de uma festa, no espelho ele lhes parece gasto, intumescido, empoeirado, já visto por todos e quase impossível de ser usado de novo.

Franz Kafka, "Roupas", em Contemplação, trad. Modesto Carone, São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 39.

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